Análise – Bloodstained: Curse of the Moon

Jogamos e analisamos o novo jogo do criador de Castlevania

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Depois que a Konami reformulou suas estratégias de negócios as suas franquias mais famosas deixaram de ter o brilho que tinham no passado. Jogos como Metal Gear e Silent Hill foram esquecidos ou reformulados de forma que não agradou aos fãs. Em todas essas mudanças o grande criador de Castlevania Koji Igarashi, foi demitido e não pôde mais atuar na sua série de sucesso, deixando milhares de fãs órfãos de um jogo digno de Castlevania. Jogos da série como Lords of Shadow, que foram lançados sem a participação de “Iga” (nome carinhoso dado ao criador pelos fãs), não houveram uma boa recepção tanto da comunidade quanto da crítica especializada, fazendo com que os fãs de Castlevania clamassem por um novo jogo e Iga decidiu atender esse desejo.

Em 2015 Iga entrou para a Inti Creates, antigo estúdio da Capcom que foi responsável por jogos como Megaman Zero e Megaman ZX. Posteriormente a Capcom abandonou o estúdio fazendo com que ele se tornasse um estúdio Indie e também a casa de grandes criadores que foram demitidos dos grandes estúdios, como é o caso de  Keiji Inafune, criador de Megaman, que deu vida a Azure Strike Gunvolt. Por questões financeiras, Koji Igarashi precisou recorrer ao Kickstarter para conseguir um financiamento dos fãs e assim colocar em prática o seu novo projeto que seria um sucessor espiritual dos antigos jogos de Castlevania chamado de Bloodstained: Ritual of the Night.

No Kickstarter Iga prometeu que Bloodstained teria como inspiração o clássico Castlevania: Symphony of the Night com mecânicas modernizadas. Além de Ritual of the Night, Iga também prometeu um jogo que teria como base os Castlevanias da era 8-bits, que seria uma prequel de Ritual of the Night e também um brinde aos fãs caso o valor arrecadado fosse alcançado, este se chamaria Bloodstained: Curse of the Moon. Em 60 dias foram arrecadados 5 milhões e meio de dólares, sendo assim os dois projetos começaram a ser trabalhados.

Pois bem, no dia 24 de Maio desse ano foi cumprida a promessa de Iga e Curse of the Moon foi lançado para Nintendo Switch, PC, Playstation 4 e PSVita. As versões de Xbox One e 3DS tiveram que ser adiadas. A homenagem aos Castlevanias de Nintendinho é claro já na tela de menu do jogo.

Agradando a Gregos e Troianos

Já antes de começar o game o jogador tem duas opções de dificuldade: Veterano e Casual. Veterano é para aqueles velhos de guerra em Castlevania que já estão acostumados com a alta dificuldade dos jogos antigos da série: o número de vidas é limitado, toda vez que seu personagem toma algum dano ele é arremessado pra trás (mecânica conhecida como Knockback), itens de cura e subweapons são escassos. Já no casual é para aqueles jogadores que não estão acostumados com a frustração dos primeiros jogos dos Belmonts: as vidas são infinitas, há uma taxa maior de conseguir life e subweapons e não há knockback quando um dano é levado. Particularmente achei essas duas dificuldades uma ótima ideia, já que agrada quem gosta de desafios e também aqueles que não tiveram contato com os jogos antigos de Castlevania dando uma oportunidade a eles de desfrutarem por completo o game sem precisar passar muita raiva.

Nostalgia do começo ao fim

O jogo começa com o jogador controlando um espadachim chamado Zangetsu, que também é um exorcista. Após perder a sua família e ser amaldiçoado por um demônio, jurou que um dia iria limpar o mundo dessas bestas. Em uma viagem ele sente uma energia maligna poderosa em uma região repleta de estradas de ferro e decide ir investigar. É nesse ponto que o game começa.

Como podem perceber o jogo não possui uma narrativa profunda, assim como é o caso dos Castlevanias da década de 80 e 90, é mais um conceito e não uma história em si.

Zangetsu ataca com uma espada de curto alcance e possui três subweapons: um chicote com uma bola de ferro na ponta que ataca em direção à diagonal pra cima; um selo que lembra bastante as poções dos Belmonts, é mandada na diagonal pra baixo e uma magia que causa dano fica por alguns segundos no local onde foi arremessado o selo; e por ultimo tem a essência demoníaca que ao utilizá-la o seu dano aumenta consideravelmente por um tempo.

E logo nos primeiros segundos o jogador já percebe pelos cenários, pela modelagem dos monstros, do personagem, pela trilha sonora e pela mecânica que o jogo foi feito para os fãs órfãos de Castlevania que a Konami abandonou. Tudo remete a Castlevania, é impossível fazer uma análise do jogo sem fazer essa comparação, pois a sensação é de que estamos jogando um Castlevania de Nintendinho o tempo inteiro.

Eu já vi isso antes, mas um pouco diferente

De que o jogo é baseado em Castlevania 8-bits já está mais do que explicito desde o começo dessa analise, porém Curse of the Moon tem como base especificamente o “Castlevania III: Dracula’s Curse” de Nintendinho, lançado em 1989.

Na medida que o jogador vai avançando no game, derrotando já os primeiros bosses do jogo, outros personagens vão entrando na aventura para ajudar Zangetsu na sua caça aos demônios, exatamente como em Dracula’s Curse, onde Trevor Belmont contava com a ajuda de Sypha Belnades, Grant DaNasty e Alucard.
Já na aventura de Zangetsu são encontrados três Alquimistas, que são eles:

  • Miriam: Uma jovem que desde criança se tornou órfã e foi criada por um grupo de Alquimistas. Possui diversas habilidades graças às runas que estão espalhadas pelo seu corpo. No jogo ela utiliza um chicote (Trevor Belmont, é você?) e suas subweapons variam de um machado que tem um dano absurdo, porém com um ataque lento; uma foice que funciona como um bumerangue, tem um bom alcance e dano; e a clássica faquinha que pode ser arremessada, mas que não possui tanto poder. O seu ataque com o chicote tem um alcance maior que a espada de Zangetsu, porém é mais lento. Miriam também tem a capacidade de dar rasteira, dando a possibilidade de entrar em passagens estreitas.
  • Alfred: É um mestre Alquimista que busca o Liber Loagaeth (um grimório de ocultismo que existe de verdade. Foi escrito por John Dee e Edward Kelley que ensinam rituais de magia negra). Alfred não tem ataques físicos muito eficientes, porém suas magias (subweapons) são extremamente poderosas, ele pode invocar um campo de força de fogo que causa dano no inimigo que encostar, pode criar um clone que pode o proteger e atacar os monstros, também tem a capacidade de atirar uma magia de gelo que congela quem estiver na sua frente e também pode conjurar esferas de raio que perseguem os inimigos causando dano a eles.
  • Gebel: É um ser criado pelos Alquimistas e também possui runas pelo corpo assim como Miriam. Ele tem um ódio profundo tanto pelos demônios quanto pela humanidade que o criou. Gebel não possui Subweapons, mas ele consegue se transformar em um morcego e pode acessar locais que os outros personagens não podem. Seu ataque padrão é invocando morcegos com sua capa que tem um bom alcance, porém com pouco dano.

Se você tiver jogado Castlevania III no Nintendinho, esses três personagens irão te lembrar imediatamente de Sypha Belnades, Grant DaNasty e Alucard respectivamente, pois as suas histórias e suas jogabilidades serviram como base para os novos personagens que ajudam Zangetsu em Curse of the Moon. Ou seja, esse game é uma grande homenagem à clássica terceira aventura dos Belmonts. Iga quis deixar isso explicito pra mostrar o quão empenhado ele está em entregar um jogo digno de sua antiga franquia agora abandonada.

O jogador pode trocar de personagem em qualquer momento do game. Se um personagem for derrotado este não poderá mais ser selecionado. Se todos os quatro personagens forem mortos aí sim uma vida é perdida e todos voltam a ser selecionáveis, recomeçando no último Check Point.

Essa possibilidade de mudar de personagem a qualquer momento cria uma enorme diversidade no gameplay, dando mais gosto em jogar e incentivando a explorar as habilidades de cada herói.

Que Level Design, meus amigos

Uma das coisas que mais me chamou a atenção em Curse of the Moon foi o seu level design. As fases possuem inúmeros caminhos e muitos deles só podem ser acessados com algum respectivo personagem selecionável, o que incentiva bastante a exploração, já que nos caminhos secretos podem ser adquiridos itens que melhoram as condições dos personagens, seja a força, a defesa, os pontos de vida e a capacidade de elixires (necessário para conjurar magias e subweapons) que podem ser carregados. Então é de extremo valor que o jogador busque todos os caminhos possíveis e consiga todos os itens para assim ter mais facilidade em enfrentar as bestas que assolam aquela região.

Uma trilha nostálgica

Impossível falar de um jogo que tem como base um dos melhores Castlevanias da era 8-bits sem falar da trilha sonora. Na primeira música do game já nos remete à Castlevania, o estilo das músicas, a construção das notas e de ritmo. Todas as músicas são também em 8-bits e não são repetitivas, dando mais prazer na exploração e na busca por vingança de Zangetsu.

Além da fúria de Zangetsu

Juro que quando comecei a jogar achei que terminando de matar o ultimo boss o jogo acabaria. Felizmente eu estava enganado. Após finalizar o jogo é liberado o Nightmare Mode, que é uma segunda quest do jogo mais desafiadora, não posso dizer mais sobre ela pra não dar Spoiler, mas falando por alto você deve passar todas as fases novamente para libertar uma alma que está em tormento.

Na campanha principal o jogador tem a liberdade de escolha entre salvar os seus aliados para te ajudarem na aventura ou matar eles e adquirir novas habilidades para Zangetsu. Se por um acaso você escolher essa segunda opção e terminar a campanha, dois novos modos são liberados: o Ultimate Mode e o Boss Rush.

  • Ultimate Mode: O jogo começa do zero, mas Zangetsu inicia já com as habilidades adquiridas ao matar seus aliados na campanha principal, porém além desses poderes o jogador pode libertar os aliados. Não muda nada no jogo, apenas isso, porém a proposta deste modo é fazer o jogador aproveitar por completo a experiência de Curse of the Moon
  • Boss Rush: O próprio nome já diz e é um modo já conhecido nos jogos de Castlevania nos portáteis da Nintendo. O jogador deve enfrentar todos os bosses do jogo e derrotá-los no menor tempo possível

Bosses fáceis até de mais

Infelizmente toda a dificuldade de level design não consegue suprir a facilidade que é nas batalhas contra os bosses. Chega a ser frustrante passar de toda uma fase difícil e chegar no boss e ter que seguir apenas um padrão simples de ataque para vencê-lo. Claro que um ou outro boss pode ter um desafio um pouco maior, mas nada que chegue a ter uma dificuldade do nível da Succubus e do Galamoth de Symphony of the Night. Esperamos que em Ritual of the Night essa decisão de colocar bosses fáceis não seja levada em conta. Até mesmo no Nightmare Mode e no Boss Rush os chefes não são difíceis de derrotar.

Este problema não tira o brilho do design dos bosses. Todos eles são visualmente muito bem trabalhados, dando até mesmo um contraste com os outros inimigos e com o cenário, o que me deixou empolgado em ver como serão os bosses de Ritual of the Night já que eles tiveram tanto cuidado no design dos chefes da prequel.

Uma aventura bem curta

Infelizmente não vão esperando uma aventura muito longa. Curse of the Moon possui apenas 8 fases e 9 bosses, sendo que as fases são repletas de caminhos que podem te levar ao final delas mais rápido ainda. Então se você espera um jogo com bastante conteúdo e fases para finalizar podem ir tirando seus chicotes da chuva, pois em apenas 2 horas é possível terminar todas as fases, mais umas 2 horas para finalizar o game em 100%.

Claro que sabemos que a proposta do game não é ser grande e que ele funciona mais como um brinde para a galera que curte Castlevania, mas infelizmente ele consegue ser menor do que aquele que ele se inspira, o Castlevania III.

80%
Muito bom!

Bloodstained: Curse of the Moon é um prato cheio para quem estava órfão de um Castlevania digno. Há referências espalhadas por todo jogo à era 8-bit do game de Drácula. É divertido terminar a campanha e explorar as fases atrás dos itens para melhorar seus personagens, mas infelizmente os bosses são muito fáceis até mesmo nos modos extras. O jogo também é bem curto para os padrões de Castlevania, mas nenhum desses pontos ofuscam o fato de que Curse of the Moon conseguiu cumprir a sua promessa: diversão e nostalgia garantidas!

  • Nota Final
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