Análise – The Messenger

Um mensageiro que chegou de fininho e trouxe muito humor e criatividade

0

Sabe quando você compra um jogo sem colocar nenhuma expectativa nele e quando começa a jogar você é completamente surpreendido? Pois é, foi exatamente isso que aconteceu comigo ao jogar The Messenger.

Desenvolvido pelo estúdio independente Sabotage Studio, The Messenger traz tudo de bom que um jogo de plataforma em 8-Bits pode trazer e vai muito além. A história tem um enredo muito bem planejado e repleto de plot twists, fazendo o jogador ficar preso ao jogo para descobrir o que virá a seguir, isso somado a um gameplay extremamente viciante e desafiador.

Todos os aspectos do jogo seguem em harmonia do começo ao fim, desde a trilha sonora até o sistema de exploração. Há uma enorme gama de referências nostálgicas e culturais com um toque de humor, fazendo o jogador gargalhar e, até mesmo, refletir em muitos momentos. Enfim, estamos diante de uma obra prima dos Indies.

Um Mensageiro e um pergaminho misterioso

O game se passa em uma ilha que foi devastada por demônios, fazendo com que os poucos humanos que sobreviveram se refugiassem em uma pequena vila escondida em sua extremidade. Lá está o nosso personagem: um aprendiz das artes marciais e futuro ninja que possui um desejo latente de sair daquele vilarejo e ir conhecer o mundo. Ele é considerado por todos o revoltado e diferente do resto. Enquanto a cultura local ensina a todos que devem permanecer na vila e a proteger de ataques demoníacos, o nosso protagonista quer ir além e descobrir o vasto mundo que deixou de ser explorado graças aos demônios.

Durante o treinamento ninja acontece um ataque surpresa na pequena vila. O Rei Demônio enviou todas as suas tropas para destruir o que restou da humanidade naquela ilha. O nosso protagonista decide então enfrentá-lo, mas durante a batalha um lendário herói que é citado nas profecias aparece, expulsa o rei demônio e entrega para o protagonista um pergaminho. A partir de agora o objetivo do nosso novo herói é subir até o pico da montanha mais alta e entregar o pergaminho misterioso para os sábios, somente assim o mundo poderá ser salvo.

A partir desse momento o protagonista fica conhecido como O Mensageiro.

Muitas referências para um jogo só

Na primeira fase já se percebe que o jogo é completamente baseado nos clássicos games de Ninja Gaiden. A movimentação do personagem, o level design e a trilha sonora são uma enorme referência ao clássico game de Nintendinho.

Uma das coisas mais engraçadas é quando o jogador se depara com o Lojista: um icônico personagem que fica na loja onde O Mensageiro pode comprar melhorias. O Lojista possui várias histórias para contar e cada uma mais interessante que a outra, fazendo com que os diálogos não sejam entediantes e chatos como na maioria dos jogos desse gênero. Neste ponto gostaria de parabenizar a equipe de tradução, pois todos os diálogos ficaram muito interessantes graças ao belo trabalho que elaboraram. Há muitas citações à nossa cultura, muitas gírias brasileiras e até mesmo histórias tradicionais dos nossos costumes.

Um sistema de progressão simplório demais

Na medida que você avança no game O Mensageiro vai coletando “fragmentos de tempo” que nada mais é do que a moeda do jogo. Com estes fragmentos você pode comprar novas habilidades para o personagem – como por exemplo, atacar enquanto estiver planando ou receber menos dano. – O problema é que essas habilidades acabam sendo simplórias demais ao ponto de deixar a construção do personagem muito linear.

Dois levels designs em um só

Quando o jogo começa o jogador tem a sensação de que está a jogar mais um game linear de passar de fase até chegar no Boss final, o derrotar e zerar, mas não é bem assim. Sim, o jogo te engana.

Deixo aqui um aviso de um pequeno Spoiler, visto que será necessário para deixar a análise mais rica em detalhes:

Quando chega na metade do jogo O Mensageiro enfrenta um servo leal do Rei Demônio e ao derrotá-lo acontece um plot twist (no qual não vou me aprofundar muito para não dar mais spoiler), fazendo com que seu personagem viaje no tempo e vá para o futuro após 500 anos. Ele entrega o pergaminho para os sábios, mas algo de errado acontece e O Mensageiro descobre que ele não é o único Mensageiro, há outros como ele em outras linhas do tempo que buscam o mesmo objetivo: alcançar o topo da montanha e encontrar com os sábios. Aqueles que conseguiram o feito se tornaram membros da seita destes eruditos, mas por conta de uma maldição (que só é explicada de fato no final do jogo) o nosso Mensageiro deve viajar no tempo em todas as fases para coletar as notas musicais para conseguir quebrá-la.

Neste ponto do jogo, que antes se tratava de fases separadas e lineares, se transforma em um Metroidvania. O Mensageiro pode viajar entre todas as fases que ele já passou, explorar cada uma delas tanto no passado quanto no futuro, já que o level design muda completamente entre as duas eras. Novos cenários também são introduzidos. É interessante ressaltar que enquanto estamos no passado o jogo é todo modelado em 8-Bits, mas quando vamos para o futuro o jogo se converte em 16-Bits em tempo real. Há uma transição muito bem elaborada entre os dois tipos de arte que dá um charme a mais para o gameplay e para o audiovisual.

A exploração é muito importante, já que há muitos cenários secretos e paredes falsas. Muitos lugares só são acessíveis em eras específicas, ou seja, tem salas que só podem ser acessadas no futuro e outras no passado. É muito importante ficar de olho no mapa do jogo, pois ele indica onde há entradas secretas. Não há nenhum tipo de Fast Travel que leva de um Checkpoint para outro, mas o jogador pode utilizar a loja do Lojista para voltar ao ponto de convergência de todos os cenários e teleportar para o inicio de cada fase.

Desafios que não param

Como todo bom jogo de plataforma sempre temos os já conhecidos colecionáveis, que dão um desafio a mais nesse tipo de game. Em The Messenger não é diferente. O jogador tem a opção de coletar todos os Power Seals, que são selos que estão espalhados pelos cenários e para coletá-los um obstáculo de level design é colocado. Não é nada fácil conseguir pegar todos, alguns chegam a ser frustrantes. Apesar dos pesares é bem gratificante coletar todos os 45 Power Seals.

Se engana quem acha que os desafios mais tensos estão somente nos cenários com os Power Seals. O level design do jogo em geral é muito bem elaborado, instigando o tempo inteiro a dificuldade e a paciência do jogador. Os inimigos são muito bem posicionados para atrapalhar quem está jogando e deixar qualquer um com sangue nos olhos.

Apesar de difícil o game é bastante justo. Ao morrer um pequeno demônio que tem o poder de parar o tempo aparece no momento exato da morte e regressa no tempo até o último Checkpoint. Devido ao serviço prestado salvando o Mensageiro momentos antes de morrer, ele o segue por um momento coletando todos os Fragmentos do Tempo que o nosso herói vai adquirindo durante a aventura como forma de pagamento.

As batalhas contra os boss são uma maravilha a parte. Apesar de não achar a maioria dos chefes tão difíceis quanto os cenários, as lutas e o design de todos são muito bem elaborados. Em muitos deles o level design acaba os favorecendo, deixando as lutas mais emocionantes.

Trilha sonora viciante

As músicas de cada fase, apesar de serem em 8-bits, são extremamente viciantes. Para quem não curte músicas no estilo 8-Bit as músicas podem não ser tão legais, mas para os apreciadores deste estilo, como eu, a trilha é um prato cheio. É impossível depois de uma jogatina não ficar com as melodias grudadas na cabeça. Nelas podemos perceber bastante influência na trilha de Ninja Gaiden de Nintendinho, a sensação que dá as vezes é que estamos jogando uma continuação do clássico de NES em razão das músicas.

A Sabotage Studio disponibilizou toda a trilha do jogo no Youtube e nas plataformas de streaming como Spotify e Deezer. Vale a pena darem uma conferida.

Framerate e falhas nos comandos

Se tem uma coisa que é unânime entre todos os jogadores de The Messenger é a ótima resposta aos comandos que o jogo tem. A precisão nos controles é absurda e para um jogo que ele propõe ser essa clareza nos comandos é algo essencial. A questão é que as vezes (não sei se foi só comigo) eu senti algumas falhas – o personagem planava sem eu mandar ou o pulo falhava, o que me deixava frustrado. Até cheguei a ver se o problema eram os meus Joy Cons, mas nos outros jogos não tive problema algum, apenas no The Messenger. Quando acontecia, o que era raro, eu apenas reiniciava o jogo e voltava ao normal.

Quanto ao framerate, em alguns poucos momentos, quando havia muitos elementos no cenário ao mesmo tempo, havia quedas bruscas de fps, mas nada que atrapalhasse a jogatina em geral.

 

90%
Incrível!

Definitivamente The Messenger é aquele tipo de jogo que faz o jogador ficar por horas na frente da tela, passando raiva até conseguir passar dos desafios. A história é muito bem elaborada, os personagens são cativantes e o gameplay é muito prazeroso. Há uma criatividade absurda no enredo que emenda no gameplay e na experiência visual, isso tudo regado a uma boa dose de bom humor e reflexão.
O jogo é todo harmônico o fazendo ser extremamente divertido e prazeroso. Uma pena o sistema de progressão do personagem ser tão linear, já que havia um enorme potencial de personalização que não foi explorado, mas isso não tira, nem de longe, o brilho que o jogo oferece.

  • Nota
você pode gostar também

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.