Pokémon – Contos de Fantasma – Capítulo 1

Noite em Lavender

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A chuva caia forte em Lavender.
Por entre a cidade, só havia uma espessa bruma cinzenta, como uma cortina de fumaça que limitava o campo de visão. Era final de tarde, mas naquela cidade, qualquer horário possuía o aspecto de uma noite espectral.
Haviam poucas pessoas perambulando pelas ruas, mas as poucas que estavam longe do conforto de suas casas foram as que viram Andrew chegando. Andrew, um homem que já passava dos quarenta anos, vestia um longo jaleco bege por cima de vestes manchadas e amarrotadas. Parecia mais uma espécie de comerciante do que um treinador Pokémon. Andava por entre o asfalto empoçado sem muita preocupação com o sapato ou a alça social.
A cabeça baixa e calva estava coberta por um chapéu cinza, cobrindo os olhos esverdeados.
Caminhando entre a névoa, parecia um fantasma.
Mesmo com a bruma espessa, era possível enxergar as luzes das casas acesas, como velas de chamas bruxuleantes em um castelo mal-assombrado. Andrew caminhou mais um pouco por Lavender, até que avistou a Pokémon Tower, erguida orgulhosa e firme em seu aspecto sombrio e fantasmagórico. Agora o caminhar do velho treinador Pokémon ia em direção a torre. Um calafrio lhe subia pela espinha. Subia pela espinha de todos. Lavender tinha esse
dom. O dom da melancolia, do desconforto, do arrepio. Até os moradores da cidade eram sombrios. Todos pareciam muito cinzentos em meio aos outros. Mas no momento, nada
daquilo importava.
Alcançou a entrada da torre. Antes que o pé direito encostasse no degrau da escada de entrada, ouviu uma voz atrás de si.

– O senhor não é daqui – disse um garoto baixo e magro. Pela mochila e pelo
boné, um mestre pokémon.
Andrew se virou e fitou o garoto nos olhos.
– Não sou.
– É um treinador, por acaso? – Um pequeno objeto metálico preso à jaqueta
reluzia com a iluminação pálida dos postes de luz de Lavender. Era a insígnia
da cascata.
– Já fui… um dia. – Disse Andrew, sombrio. – E você?
– Serei o melhor! – sorriu o garoto – O mais poderoso dos treinadores.
– Não. – cortou o velho treinador. O sorriso do garoto murchou. – Não importa do quão forte você seja, ou de quão bom você é em uma batalha. Se trata do verdadeiro poder dos Pokémon, aquele que eles não usam em combate. Um treinador que não desiste de uma batalha simplesmente para provar que é o mais forte, é um treinador medíocre. O que abre mão da Batalha para preservar a saúde do seu pokémon, é um bom treinador.

– Eu… eu não intendo.
– Um dia você vai. Só espero que mais cedo que eu… Boa sorte, garoto.

E então Andrew deu as costas. E entrou na torre enquanto o garoto ia embora de bicicleta.
A torre estava vazia. Não era surpresa, afinal, já havia escurecido e ninguém em plena consciência ficaria na torre após o entardecer. Até mesmo os mais céticos concordavam que a aura do lugar era pesadíssima, não apenas dentro da torre, mas em toda a cidade. Como se o lugar todo estivesse em um eterno luto. E mesmo com essa sensação, com essa carga negativa lhe pesando sobre os ombros, como se um larvitar descansasse em
sua cacunda, ele prosseguiu.
Cruzou o segundo andar, trêmulo e vacilante, até alcançar a escadaria que levava ao terceiro andar. Lá, tirou do bolso do casaco um Silph Scope e o pôs no rosto, amassando de
leve a aba da frente do chapéu tweed.

Dessa vez será diferente… Tem… Precisa ser diferente… Precisa. Sussurrou para si, em
meio a lágrimas.

Agora no terceiro andar, ele andou devagar por entre as lápides de pokémons. As pernas bambas vacilavam com frequência ele conseguia sentir o suor frio escorrendo da testa e grudando no revestimento emborrachado do Silph Scope. O terceiro andar possuía ainda mais lápides que o segundo, e a atmosfera era muito mais fantasmagórica.

Andou mais dois ou três metros salão adentro, até que uma dor de cabeça lancinante
tomou conta da cabeça, a visão toda ficou negra. A dor foi tanta que ele se ajoelhou e chorou.
E de repente… Um fantasma apareceu…

Andrew ficou paralisado. Mas teve controle suficiente para olhar para a figura gasosa e negra à sua frente, mesmo com a dor de cabeça e o suor nos olhos. Através do Silph Scope, a forma espectral foi se delineando, até assumir uma forma. Assumiu forma de um
Gengar.

– Você não devia ter vindo, Andrew. Não devia!

A voz do pokémon vinha telepaticamente. O que causou a Andrew ainda mais dor de cabeça.
Andrew teve forças pra dizer:

– Gengar… Eu não acredito.. Após todos esses an…

Gengar usou o psychic.
Andrew berrou com a dor e desconforto.
VÁ EMBORA!!
– Gengar, me perdoe!! Eu fui um tolo! Eu me arrependo!
Andrew tentou se levantar, mas a dor o fez cambalear e cair de novo.

– Quantos pokémon seus você matou depois de mim, Andrew? Quantos deles você fez lutar até o cansaço? Quantos deles você exauriu até a última gota, e fez treinar um pouco mais?

– Gengar, eu… Eu sinto muito?

Gengar usou o psychic.
QUANTOS?!
– Só você!!
– Ao menos, Andrew, eu servi de exemplo. Já que eu não fui forte o suficiente na sua obstinada jornada. Não é, Andrew?
– Me perdoe!!
Gengar usou o psychic.
Andrew urrou com a dor.

– Por Arceus! Pare, Gengar! Por favor!
Gengar fitou seu antigo treinador com seus olhos rubros.
– Você não devia ter voltado, Andrew…
Gengar usou Shadow Ball

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